Um Dilúvio, uma Árvore e uma Palestina Livre

20-07-2024

A 7 de outubro de 2023, um ataque conduzido pelo Hamas em Israel vitimou mais de 1000 pessoas, escandalizando o mundo. Como resposta, as forças armadas israelitas iniciaram uma ofensiva sobre Gaza, declarando guerra total sobre o povo palestiniano. Desde então, mais de 37 mil palestinianos foram martirizados e 86 mil feridos[1]. Seria de esperar que os países ocidentais, que se prezam pela defesa dos direitos humanos, pela justiça, pela solidariedade, se juntassem para acabar com este massacre com intenções genocidas. Mas a realidade é que o governo de Israel conta com o apoio financeiro e militar das duas maiores potências ocidentais: Estados Unidos da América e União Europeia.

Desde 1946, Israel recebeu aproximadamente 300 mil milhões de dólares em auxílio financeiro e militar por parte dos EUA, sendo que mais de 12 mil milhões foram fornecidos desde 7 de outubro de 2023[2]. De acordo com o jornal "The Times of Israel", mais de 14.000 bombas «MK-84» foram enviadas pelos EUA a Israel desde o inicio da guerra (entre outro armamento). Já a União Europeia continua o seu apoio ao estado de Israel, com aproximações diplomáticas, bem como fornecimento de armamento. Só em 2023, a Alemanha, segundo maior exportador de armamento para Israel (apenas atrás dos Estados Unidos), aumentou os seus rendimentos com a produção bélica, de 32 milhões para 326 milhões[3].

A luta do povo palestiniano não é somente contra Israel, mas sim contra o espírito imperialista e colonialista europeu que se estende à região, pelo menos, desde o fim da 1ª Guerra Mundial. Após a derrota e consequente dissolução do Império Otomano em 1919, os seus antigos territórios foram divididos pelas potências europeias, sem qualquer sentimento pelas populações que aí habitavam em harmonia há séculos. Assim nasceu em 1922, o Mandato Britânico da Palestina, que administrava a região que hoje se estende entre a Palestina e Israel. Durante a guerra, os britânicos e franceses haviam assinado secretamente o Acordo Sykes-Picot, dividindo a região do Médio Oriente, traindo assim as populações árabes a quem tinham prometido independência[4].

Com o controlo britânico da Palestina, o projeto sionista poderia ser finalmente concretizado. Teorizado pelo austríaco Theodor Herzl em 1896, o Sionismo é uma ideologia nacionalista judaica, que reivindicava um estado-nação para os judeus, povo que era perseguido na Europa há séculos. A zona da Palestina mostrou-se como o local ideal para o estabelecimento do estado judaico, pelas suas conexões históricas ao lendário Reino de Israel.

Em 1917, Arthur Balfour, Secretário das Relações Estrangeiras britânico, expressou o apoio público do Reino Unido à criação de um estado-nação para os judeus, traçando o caminho para o que viria ser a independência israelita nas próximas décadas. Curiosamente, o antissemitismo de Balfour foi uma das razões para essa promessa. A única figura judaica do governo de Lloyd George (o qual Balfour era membro), Edwin Montagu, criticou fortemente a Declaração de Balfour, vendo-a como encorajadora para os antissemitas que queriam expulsar os judeus da Europa[5]. Mas as sementes estavam lançadas e o estado de Israel viria a ser criado no final da década de 1940.

Theodor Herzl, o pai do sionismo (1860–1904)
Theodor Herzl, o pai do sionismo (1860–1904)
Artur Balfour e a Declaração Balfour (1917) que prometia a criação de um estado-nação para os judeus
Artur Balfour e a Declaração Balfour (1917) que prometia a criação de um estado-nação para os judeus

Antes do fim da Primeira Guerra Mundial, a população árabe compunha cerca de 97% de toda a população local. Em 1947, a população judaica tinha crescido de 3% (no período pré I Guerra Mundial) para 33%. Com o fim do Mandato Britânico da Palestina e consequente independência de Israel em 1948, as forças sionistas avançaram sobre a população local, no que viria a ser conhecido como a Nakba. Mais de 750 mil palestinianos foram expulsos das suas casas e as suas terras foram capturadas pelos colonos israelitas. Em 1949, a população judaica controlava cerca de 78% do território[6].

No plano mundial, os vários acordos de divisão da Palestina não foram aceites por ambas as partes. Em 1947, a ONU aprovou a Resolução 181, que dividia a Palestina em dois estados. No entanto, a divisão era prejudicial para a população palestiniana, retirando-lhe desproporcionalmente terreno face à percentagem de população e dava a Israel as regiões mais férteis e produtivas. Com as tensões entre árabes e judeus em altas, Israel pôs em prática o «Plano Dalet», que consistia numa invasão em grande escala aos territórios palestinianos, levando à expulsão de milhares de locais árabes, bem como líderes do movimento da independência palestiniana.

Em 1967, durante a «Guerra dos Seis Dias», Israel voltou a forçar 300 mil palestinianos a fugirem das suas terras, posteriormente tomadas pelos sionistas. Centenas de aldeias e vilas foram completamente destruídas, muitas delas permanentemente. Este evento ficou gravado na memória histórica da Palestina como a Naksa, relembrando as atrocidades cometidas pelas forças israelitas sobre o povo palestiniano.

Mas como resiste contra uma potência económica e militar apoiada pelos Estados Unidos da América e a União Europeia, um povo constantemente oprimido? A primeira grande manifestação de resistência palestiniana ocorreu em 1987, quando uma revolta espontânea no campo de refugiados de Jabaliyah levou a um conflito físico entre palestinianos e as forças israelitas. Com uma força superior, os israelitas conseguiram conter a revolta, matando cerca de 1600 civis. Em 2000, uma nova revolta resultou na morte de mais de 3 mil palestinianos e 700 israelitas. Estes episódios ficaram marcados na história como a Primeira e Segunda Intifada.

População palestiniana forçada a fugir durante a Nakba (1948)
População palestiniana forçada a fugir durante a Nakba (1948)
População palestiniana obrigada a retirar sob a vigilância das forças israelitas durante a Naksa (1967)
População palestiniana obrigada a retirar sob a vigilância das forças israelitas durante a Naksa (1967)

Mas o preço a pagar por estas revoltas foi a intensificação da repressão e violência sobre a Palestina, com Gaza a ser uma vitima particularmente importante. Concentrando em si grande parte da população palestiniana, a Faixa de Gaza é uma vitima constante de ataques israelitas, sendo frequentemente atacada nos seus pontos mais cruciais. Em 2010, Israel bombardeou e destruiu o Aeroporto Yasser Arafat, cortando a ligação aérea a Gaza. Recentemente, Israel destruiu todas as universidades em Gaza, bem como grande parte dos hospitais, escolas e outros serviços essenciais. É também importante relembrar que as fronteiras de Gaza, bem como acesso a muitos dos seus recursos essenciais, é controlado por Israel, que produz assim outra ferramenta de opressão do povo palestiniano.


Este artigo, embora com um contexto algo histórico, não tem, de todo, o intento de fazer um breve resumo histórico da Palestina. Mais importante que isso, pretende-se com este artigo fazer um apelo à humanidade de cada um, da sociedade, para as atrocidades que Israel comete diariamente na Palestina. Todos leem notícias, todos observam diariamente os abusos, a violência que as forças armadas israelitas propagam em Gaza, Rafah e tantos outros pontos. Todos veem com horror o avanço dos colonatos ilegais na zona da Cisjordânia, que resultam na expulsão de famílias e comunidades das terras que habitavam há décadas e séculos. Todos sentem a frieza dos EUA e da UE que, através de discursos elaborados, tentam passar a imagem de preocupação pela dignidade humana, mas que se vergam ao lucro do mercado bélico, feito à custa de vidas inocentes, muitas delas crianças.

Faço aqui uma reflexão totalmente pessoal e sincera, daquele que é talvez o mais importante acontecimento internacional que experienciei na minha vida, pelo menos no que diz respeito à consciencialização política e social. É com grande orgulho e respeito que vejo cada vez mais pessoas a levantarem-se pelo apoio à causa palestiniana, às injustiças e sistemática opressão de Israel e a conivência da União Europeia e EUA. Israel pode ter o apoio dos governos, mas não tem o apoio do povo e, no final de contas, se a história nos ensinou alguma coisa, é que o povo é soberano e levará avante a sua vontade para que os palestinianos possam ter a sua dignidade, que lhes tem sido progressivamente roubada. Israel, cujo pretexto para a sua criação foi precisamente a opressão e violência sistémica vivida pelo povo judaico na Europa, pratica exatamente as mesmas táticas no povo palestiniano, num ato de hipocrisia e falta de moralidade.

Urge a necessidade de Portugal se colocar na linha da frente na defesa dos direitos humanos e reconhecer o Estado da Palestina, como forma, não só de fazer cumprir a Constituição, que consagra no ponto 3 do artigo 7º o reconhecimento do direito à autodeterminação dos povos, mas também de mostrar o seu respeito pela dignidade e humanidade do povo palestiniano. Reconhecer a independência palestiniana é também um passo dado no caminho certo para aceitarmos o nosso próprio papel histórico de opressão dos vários povos que constituíam o antigo Império Português. É imperativo relembrar que um dos valores de Abril é a descolonização e, nesse sentido, reconhecer o Estado da Palestina é cumprir Abril.

Acabo este artigo, a citar a poeta palestiniana Fadwa Tuqa, com um sentido de esperança para o futuro da Palestina enquanto estado soberano, livre das amarras da opressão israelita e ocidental, do fascismo colonialista que, durante quase um século, condenou a região ao fracasso, à violência e à miséria. Enquanto socialista e humanista, digo com toda a clareza: Do rio ao mar, a Palestina vencerá!

"Quando a Árvore se erguer, os ramos
Vão florir verdes e viçosos ao sol
O riso da Árvore desfolhará
Debaixo do sol
E os pássaros voltarão
Sim, os pássaros voltarão com certeza
Voltarão."
«O Dilúvio e a Árvore (1967)»

Por Rodrigo Dias.

Referências

[1] Números oficiais à data deste artigo (29/06/2024), de acordo com a agência de notícias Al-Jazeera.

[2] Dados fornecidos pelo instituto "Council of Foreign Relations": https://www.cfr.org/article/us-aid-israel-four-charts.

[3] Estatísticas providenciadas pelo "Transnational Institute": https://www.tni.org/en/publication/partners-in-crime-EU-complicity-Israel-genocide-Gaza

[4] Ver a Correspondência Hussein-McMahon, onde os britânicos prometem a independência aos árabes em troca de revoltas para enfraquecer os otomanos.

[5] https://foreignpolicy.com/2010/09/08/how-anti-semitism-helped-create-israel-2/

[6] https://www.aljazeera.com/features/2018/11/2/more-than-a-century-on-the-balfour-declaration-explained

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